sábado, 20 de setembro de 2025

A Bússola do Vazio (aforismo) - Nelsinho Ferreira

 

O desejo é um dos sentimentos mais profundos da vida humana. Ele nos move, nos guia e queima por dentro, mas também pode nos consumir. Mas o que acontece quando o desejo desaparece?

“O desejo é um impulso que guia o homem pela vida. É como uma bússola que mostra caminhos, uma força invisível que queima e consome. Sem desejo, nem o nascer do dia faria sentido — a vida fica vazia, o corpo vira sombra, e tudo se perde no silêncio do vazio.”

O desejo é uma coisa estranha: ao mesmo tempo que nos ilumina, também pode nos prender. Quando ele some, a vida não fica só vazia — ela perde a vontade e vira um silêncio grande demais. Por isso, mesmo quando dói, o desejo é essencial para existir.

sexta-feira, 25 de julho de 2025

Cosmovisão - Nelsinho Ferreira

Há quem diga que o mundo foi criado em sete dias.

Outros, que levou milhões de anos para tudo se formar.

Alguns dizem que foi Deus; outros, uma explosão.

Cada gente conta uma história do mundo. 

Tudo depende da sua criação

e da relação que tem com ele. 

Lembro de ouvir, certa vez,

que para os povos da floresta,

o mundo nasceu do sonho dos ancestrais

e que tudo, rio, pedra e vento,

carrega um pedaço do começo.

Já ouvi dizer que no início não havia nada,

e esse nada deu origem a tudo.

Que coisa complexa é essa?

O nada... sendo o princípio do tudo! 

Outro dia, um sujeito de nome estranho

falou que o infinito é o início, 

sem começo, sem fim,

uma linha que gira sobre si. 

Mas eu prefiro acreditar

que o infinito não está no tempo,

mas no pensamento de quem ousa imaginar.

segunda-feira, 14 de julho de 2025

A Natureza do Desejo - Nelsinho Ferreira

O que é o desejo,
senão ausência vestida de direção?
Um vazio que empurra,
uma falta que pulsa
como se fosse plenitude. 

Ele nasce
sem hora marcada,
no entrelugar do corpo e da alma —
é memória do que nunca tivemos,
e ainda assim sentimos falta. 

Desejar é caminhar
sem mapa,
mas com um farol aceso por dentro.
É mover-se por algo que brilha,
mesmo quando o mundo é sombra. 

Há quem viva de desejos
como quem vive de pão.
E há quem os negue,
como quem renega a si mesmo. 

Mas…
quando o desejo morre,
o que sobra do humano?
Sem ele, a bússola gira em falso,
e a vida perde seu contorno. 

A natureza do desejo?
É ser chama que não consome,
falta que fertiliza,
ânsia que revela
o que somos antes de ser.

quinta-feira, 3 de abril de 2025

O Reflexo - Nelsinho Ferreira

     

Às vezes, o espelho não revela apenas a imagem física de quem somos, mas também o reflexo de um vazio, de uma inquietação que não conseguimos explicar. Olhamos para nós mesmos e não reconhecemos quem está ali, como se o que vemos não fosse o que somos de verdade. O rosto no espelho é familiar, mas a alma parece distante, como se não fosse mais nossa.

A sociedade, com sua teia de expectativas e papéis impostos, nos ensina a atuar. Desde pequenos, nos dizem o que devemos fazer, o que devemos ser. Somos educados para ocupar um lugar, para representar um papel, para ser algo para os outros: o filho, o amigo, o trabalhador, o estudante, o parceiro. Mas, ao longo do tempo, esquecemos de quem somos por trás dessas funções. O que acontece quando o papel se torna tão grande que engole o ator? O que acontece quando, ao olhar no espelho, não vemos mais a nossa essência, mas uma máscara que colocamos todos os dias?

A dificuldade de se reconhecer em si mesmo vai além da aparência física. Ela está na desconexão com a nossa verdade interna, com os nossos próprios desejos, sonhos e sentimentos. Estamos tão focados em agradar os outros, em atender às expectativas da sociedade, que esquecemos de perguntar: quem sou eu realmente? O que faz o meu coração bater mais forte? O que me move de dentro para fora? A correria da vida cotidiana, cheia de obrigações, nos distancia do que realmente importa.

No entanto, há algo curioso e libertador nesse processo de não nos reconhecermos. Às vezes, é justamente nesse momento de desconexão que somos forçados a olhar mais profundamente. O espelho não é mais um mero reflexo, mas um convite para a reinvenção. Ele nos desafia a olhar além da superfície, a questionar as verdades que nos foram impostas e a buscar o que é genuíno em nós.

Talvez o reconhecimento de si mesmo não seja algo que se encontra, mas algo que se constrói. O processo de descobrir quem somos é uma jornada constante, que vai além do simples ato de olhar. E, assim, ao invés de tentar encontrar uma resposta imediata, podemos aprender a viver com as perguntas, a permitir que o espelho nos mostre não só o que somos agora, mas também o que podemos vir a ser. Reconhecer-se, então, não é se prender a uma imagem estática, mas permitir-se evoluir, se reinventar e, finalmente, aceitar que o reflexo mais verdadeiro é aquele que ainda estamos por descobrir.