quinta-feira, 24 de setembro de 2026

Os jovens de hoje estão preparados para o futuro? - Nelsinho Ferreira

É comum ouvirmos que os jovens de hoje terão dificuldades no futuro. Muitas vezes, essa ideia está relacionada à falta de determinados conhecimentos, à dificuldade de adaptação ao mercado de trabalho ou às mudanças nas formas de relacionamento. Mas será que os jovens estão realmente despreparados para o futuro? Ou será que estamos diante de uma sociedade que também está mudando junto com eles?

Uma geração em transformação

Os jovens de hoje vivem uma realidade bastante diferente daquela experimentada pelas gerações anteriores. A tecnologia passou a fazer parte de praticamente todos os aspectos da vida cotidiana. A internet, os celulares e as redes sociais transformaram a maneira como as pessoas se comunicam, estudam, trabalham e estabelecem relações.

O sociólogo Manuel Castells ajuda a compreender esse processo por meio do conceito de sociedade em rede. Para o autor, as novas tecnologias não são apenas ferramentas, mas estão relacionadas a profundas mudanças na economia, no trabalho, na comunicação e na organização da sociedade.

Isso significa que os jovens não estão simplesmente vivendo em uma sociedade que permanece igual enquanto eles mudam. A própria sociedade está se transformando ao mesmo tempo em que uma nova geração cresce.

Os jovens precisam se adaptar ou também transformam a sociedade?

Quando falamos sobre o futuro dos jovens, é comum destacar aquilo que eles precisam aprender para se adaptar ao mundo do trabalho e às exigências da sociedade. Essa preocupação é importante, mas existe outro aspecto que também merece atenção: os jovens não são apenas influenciados pela sociedade; eles também ajudam a transformá-la.

Novas formas de comunicação, de trabalho e de relacionamento surgem a partir das mudanças culturais e tecnológicas. Os jovens participam ativamente desse processo ao incorporar novas tecnologias ao cotidiano, criar novas formas de interação e desenvolver diferentes maneiras de enxergar o mundo.

Portanto, não podemos compreender a juventude apenas como uma geração que precisa se adaptar às estruturas existentes. Ela também participa da construção de novas estruturas sociais.

Uma sociedade em constante mudança

O sociólogo Zygmunt Bauman, ao desenvolver o conceito de modernidade líquida, analisou uma sociedade marcada por mudanças rápidas e por relações cada vez menos estáveis. Essas transformações podem ser percebidas nas relações pessoais, no consumo, na identidade e também no mundo do trabalho.

Para os jovens, essa realidade pode representar tanto desafios quanto novas possibilidades. O mercado de trabalho, por exemplo, passa por constantes transformações. Novas profissões surgem, algumas atividades são automatizadas e diferentes habilidades passam a ser valorizadas.

Por isso, talvez não seja suficiente perguntar se os jovens estão preparados para o futuro. Também precisamos perguntar que tipo de futuro está sendo construído e qual será a participação dos jovens nessa construção.

Os jovens também constroem o futuro

A sociedade influencia a formação das novas gerações, mas as novas gerações também influenciam a sociedade. Existe, portanto, uma relação constante entre indivíduo e sociedade.

Os jovens de hoje estão crescendo em meio a mudanças tecnológicas, culturais e econômicas que alteram a maneira como as pessoas vivem e trabalham. Ao mesmo tempo, seus comportamentos, suas escolhas e suas formas de se relacionar também contribuem para produzir novas transformações.

Dessa maneira, talvez seja mais interessante pensar nos jovens não como uma geração que simplesmente terá que se adaptar ao futuro, mas como uma geração que também ajudará a construí-lo.

O futuro não é algo completamente pronto que espera pelos jovens. Ele está sendo construído no presente, por meio das transformações sociais, culturais, econômicas e tecnológicas que acontecem todos os dias.

Talvez, então, a pergunta mais interessante não seja apenas "os jovens estão preparados para o futuro?", mas:

"Como os jovens estão ajudando a construir a sociedade do futuro?"

Referências

BAUMAN, Zygmunt. Modernidade líquida. Rio de Janeiro: Zahar, 2001.

CASTELLS, Manuel. A sociedade em rede. São Paulo: Paz e Terra, 2012.

 

terça-feira, 17 de março de 2026

Entre acordes e ideias: um caminho para entender filosofia - Nelsinho Ferreira

Dizem que ninguém começa na música tocando um solo complicado. Antes disso, há o estranhamento do instrumento, o incômodo nos dedos, a confusão entre sons que parecem todos iguais. Aprende-se, primeiro, um acorde. Depois outro. E mais outro. Aos poucos, aquilo que antes era apenas barulho começa a ganhar forma, ainda simples, ainda hesitante, mas já reconhecível como música.

Com a filosofia não deveria ser diferente.

Há quem acredite que ensinar filosofia é colocar o aluno, de imediato, diante das grandes obras, como se bastasse abrir um livro difícil para que o pensamento floresça. Mas isso é como entregar uma guitarra a alguém que nunca tocou e pedir que execute uma canção inteira. O resultado, quase sempre, é frustração, não por falta de capacidade, mas por falta de iniciação.

Talvez fosse mais honesto começar pelos acordes.

Os comentadores, muitas vezes vistos com desconfiança, cumprem esse papel silencioso. Eles simplificam, organizam, repetem. São como aquelas primeiras músicas com poucos acordes, que qualquer iniciante consegue tocar. Não são a música em toda a sua potência, é verdade, mas são o caminho até ela. Permitem que o ouvido se acostume, que o pensamento ganhe ritmo, que a compreensão deixe de ser um esforço doloroso e passe a ser um exercício possível.

Com o tempo, algo curioso acontece: o estudante já não quer mais apenas repetir. Ele começa a perceber nuances, sente falta de algo que não está nas versões simplificadas. É nesse momento que surge o desejo pela “música original”.

Ler o filósofo diretamente é como isso. É mais difícil, mais exigente, às vezes até desconcertante. Mas também é mais vivo. Há pausas inesperadas, mudanças de tom, ambiguidades que nenhum manual consegue traduzir completamente. É quando o pensamento deixa de ser apenas aprendido e passa a ser experimentado.

Ensinar filosofia, então, talvez seja isso: não apressar o concerto final, nem desprezar os exercícios iniciais. É acompanhar o aprendiz no tempo certo de cada acorde, confiando que, um dia, ele mesmo buscará a música inteira.

Porque, no fundo, ninguém aprende filosofia apenas decorando ideias, assim como ninguém aprende música apenas olhando cifras. É preciso tocar, errar, repetir e escutar de novo.

E, quando menos se espera, aquilo que antes era só esforço vira expressão.

Talvez seja aí que aconteça a transformação mais bonita. O músico que aprendeu acordes, repetiu canções e enfrentou partituras difíceis, um dia deixa de apenas tocar músicas dos outros, ele começa a compor. Do mesmo modo, aquele que percorreu os comentadores, enfrentou os textos originais e se demorou nas ideias, já não se contenta em apenas repetir pensamentos alheios. Ele passa a pensar por si.

Fazer filosofia, então, não é apenas compreender o que já foi dito, mas encontrar uma voz própria no meio de tantas vozes. É como criar uma música inédita: há ecos do que foi aprendido, influências reconhecíveis, mas há também algo novo, singular, que só poderia surgir daquela experiência.

E talvez seja esse o verdadeiro objetivo, não formar apenas leitores de filosofia, mas autores de pensamento; não apenas músicos que reproduzem, mas aqueles que, enfim, aprendem a criar.